Da ICC com Fração de Ejeção Preservada ao MACE em Diabéticos

O que os ensaios SUMMIT e SURPASS-CVOT mostram sobre o coração
Da ICC com Fração de Ejeção Preservada ao MACE em Diabéticos
O que os ensaios SUMMIT e SURPASS-CVOT mostram sobre o coração
A tirzepatida chegou ao campo da medicina cardiometabólica pela porta do controle glicêmico e do emagrecimento. Mas os dados que foram acumulando ao longo dos últimos dois anos revelam uma história mais ampla: trata-se de um fármaco com evidências crescentes de benefício cardiovascular — e com pelo menos um ensaio de desfecho cardiovascular já concluído e publicado. O campo precisa, porém, ser lido com precisão: há o que está confirmado, o que está sinalizando e o que ainda aguarda dados definitivos.
O Mecanismo Cardioprotetor: Por Que o Duplo Agonismo Importa
A tirzepatida atua simultaneamente nos receptores GIP e GLP-1. Além das vias de saciedade e controle glicêmico, essa atuação dupla produz efeitos sobre múltiplos determinantes do risco cardiovascular: redução da pressão arterial sistólica (de 4 a 6 mmHg em média nos estudos do programa SURPASS), redução de triglicerídeos (de 20 a 25%), melhora do HDL e redução de marcadores inflamatórios como a PCR, além de efeitos favoráveis sobre a gordura visceral e a gordura pericárdica — um tecido com papel ativo na fisiopatologia da insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada (ICFEp).
SUMMIT: Tirzepatida e Insuficiência Cardíaca com Fração de Ejeção Preservada
A ICFEp associada à obesidade representa um dos fenótipos cardiovasculares mais prevalentes e, historicamente, com menos opções terapêuticas eficazes. O estudo SUMMIT, publicado no New England Journal of Medicine em novembro de 2024 (Packer et al., NEJM 2025), avaliou tirzepatida em 731 pacientes com ICFEp (fração de ejeção ≥ 50%) e obesidade (IMC ≥ 30), sintomáticos (NYHA II a IV), em seguimento de aproximadamente dois anos.
O resultado primário combinado — morte cardiovascular ou piora da insuficiência cardíaca — foi reduzido em 38% no grupo tirzepatida em comparação ao placebo. Houve melhora significativa de sintomas (KCCQ-CSS), capacidade funcional (teste de caminhada de 6 minutos) e perda de peso. Uma análise mecanística secundária publicada na Nature Medicine confirmou que a tirzepatida reduziu o volume sanguíneo estimado, a pressão arterial sistólica e os níveis de PCR, sugerindo que o benefício ocorre por redução da sobrecarga volêmica e da inflamação sistêmica — não apenas pelo emagrecimento em si.
O SUMMIT foi o primeiro grande estudo de desfecho duplo-cego a demonstrar benefício clinicamente significativo de uma terapia dupla de incretina nessa população.
— Packer M et al., NEJM 2025
SURPASS-CVOT: Tirzepatida vs. Dulaglutida em Diabéticos com Doença Cardiovascular Estabelecida
Para pacientes com diabetes tipo 2 e doença cardiovascular aterosclerótica estabelecida (ASCVD), a pergunta relevante era: a tirzepatida é pelo menos tão eficaz quanto os GLP-1 de primeira geração — cuja proteção cardiovascular já estava demonstrada contra placebo? O SURPASS-CVOT, publicado no NEJM em dezembro de 2025 (Nicholls et al.), respondeu com dados de mais de 13.000 pacientes seguidos por mediana de 4 anos.
O desfecho primário (MACE-3: morte cardiovascular, infarto do miocárdio ou AVC) ocorreu em 12,2% dos pacientes no grupo tirzepatida e em 13,1% no grupo dulaglutida (HR 0,92; p = 0,003 para não inferioridade; p = 0,09 para superioridade). A não inferioridade foi confirmada; a superioridade não atingiu significância estatística, embora o resultado numérico favoreça a tirzepatida.
Além disso, a tirzepatida produziu reduções significativamente maiores que a dulaglutida em HbA1c (−1,66% vs. −0,88%), peso corporal (−11,6% vs. −4,5%), triglicerídeos (−24,2% vs. −10,2%) e pressão arterial sistólica (−6,2 vs. −4,1 mmHg).
O Que Ainda Aguardamos: SURMOUNT-MMO
A pergunta que persiste é a análoga ao SELECT da semaglutida: a tirzepatida reduz eventos cardiovasculares em pessoas com obesidade, sem diabetes, mas com doença cardiovascular estabelecida ou múltiplos fatores de risco? Esse é o objetivo do SURMOUNT-MMO, um ensaio controlado por placebo atualmente em andamento. Os resultados não são esperados antes de 2027. Até lá, a tirzepatida não tem dados de superioridade cardiovascular em não diabéticos — diferença importante em relação à semaglutida, que já tem o SELECT.
Conclusão
A tirzepatida tem evidência cardiovascular mais robusta do que muitas vezes é comunicado ao público leigo. O SUMMIT confirma benefício real na ICFEp com obesidade. O SURPASS-CVOT confirma segurança cardiovascular não inferior à dulaglutida em diabéticos com ASCVD e vantagens metabólicas consideráveis. O benefício cardiovascular direto em não diabéticos com obesidade permanece como a grande questão aberta, aguardando o SURMOUNT-MMO.
Referências
- Packer M, Zile MR, Kramer CM, et al. — "Tirzepatide for Heart Failure with Preserved Ejection Fraction and Obesity" (SUMMIT). New England Journal of Medicine 2025;392(5):427-437. DOI: 10.1056/NEJMoa2410027
- Borlaug BA, Zile MR, Kramer CM, et al. — Análise secundária mecanística do SUMMIT. Nature Medicine, novembro de 2024. DOI: 10.1038/s41591-024-03374-z
- Nicholls SJ, Pavo I, Bhatt DL, et al. — "Cardiovascular Outcomes with Tirzepatide versus Dulaglutide in Type 2 Diabetes" (SURPASS-CVOT). New England Journal of Medicine 2025;393:2409-2420. DOI: 10.1056/NEJMoa2505928
- Sattar N — "From Weight Loss to Multimorbidity Prevention: Framing the Anticipated Contributions of SURMOUNT-MMO". Obesity, 2025. PMC12381600
Aviso Legal: Este conteúdo tem caráter meramente informativo e não substitui a consulta médica. Sempre procure um especialista para avaliar a viabilidade de qualquer tratamento para o seu perfil clínico.